Estou vivendo na Villa Borghese. Não há resquício de sujeira em parte alguma, nem uma cadeira fora. do lugar. Estamos completamente sozinhos e estamos mortos. Ontem à noite, Boris descobriu que estava com chatos. Tive de raspar-lhe as axilas e mesmo depois disso a coceira não passou. Como pode alguém adquirir chatos num lugar bonito como esse? Mas isso não tem importância. Talvez nunca nos tivéssemos conhecido tão intimamente, Boris e eu, se não fossem os chatos. Bóris acaba de oferecer-me uma síntese de suas idéias. É um profeta metereológico. O tempo continuará ruim, diz ele. Haverá mais calamidades, mais morte,  mais desespero. Não há a menor indicação de mudança em parte alguma. O câncer do tempo está-nos comendo. Nossos heróis mataram-se ou estão se matando. O herói, então, não é o Tempo, mas a Ausência de Tempo. Precisamos acertar o passo, em ritmo acelerado, em direção à prisão da morte. O tempo não vai mudar.

2003.IBRASA.Tradução: Aydano Arruda.

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