Desde que me entendo por gente o budismo me é familiar. Mas não o Zen, apesar da intrínseca familiaridade.

Alan Watts é o cara que trouxe pro ocidente a tradução do Zen, e assim acabou sendo um dos  precursores embrionários de idéias e visões de mundo (ou mesmo a ausência de uma “visão de mundo”) que iriam desembocar no movimento beatnik, posteriormente os hippies, apesar de ser uma salada cultural (tipicamente norte americana), continha a ambiguidade de trazer junto outras formas de entender o mundo, o planeta, as coisas e seres vivos e isso ecooa até os dias de hoje e pra além deles.

Eis então uma breve introdução a um “pensamento” que tem como uma das características principais a de não se formar um dogma, privilegiando a experiência direta, sem mediação do entediante bom ou ruim, bem ou mal, ou sequer palavras. Um “pensamento” vivo que, ao “modo” do Tao, ao circundá-lo a fim de prendê-lo e classificá-lo ao mesmo tempo você o perde.

* “Há muito tempo um homem mantinha preso um ganso numa garrafa. Ele cresceu, cresceu, até que não podia mais sair da garrafa; mas o homem não queria quebrar a garrafa nem ferir o ganso; como o ganso poderia ser retirado?”

Muitos estudantes ocidentais estão sob a impressão de que a “meditação” zen (isto é, o trabalho com o Koan) é uma forma de auto-hipnose, sendo o seu objetivo induzir a um estado de transe. Agindo sob essa impressão, Arthur Waley descreveu o Zen como “quietismo”, Reuschauer, como “uma auto-intoxicação mística”, e Friffiths, como “o assassinato da mente e a maldição dos devaneios inúteis”. O exato oposto é a verdade; trabalhe com um Koan, para ter êxito, sem precisar ter nada de passividade do quietismo e, quanto ao “assassinato da mente e a maldição dos devaneios inúteis”, uns poucos dias de permanência numa comunidade zen dariam fim aos inúteis devaneios, enquanto a acusação de que o Zen é “o assassinato da mente” não é mais verdadeira do que a acusação de que ele perturba toda a moralidade. Pois, assim como a moralidade, a mente (intelecto) é um bom servo e mau mestre e, enquanto a regra for a de que os homens se tornem escravos por seus modos intelectuais de pensamento, o Zen visa controlar e ultrapassar o intelecto; mas, como no caso do ganso e da garrafa, o intelecto, como a garrafa, não é destruído. O Koan não é um meio para induzir o transe, como se alguma espécie de transe fosse a mais alta conquista possível para seres humanos; é apenas um meio de ultrapassar uma barreira ou, como os mestres zen o descrevem, é um tijolo com o qual batemos na porta; quando ela se abre, o tijolo pode ser jogado fora, e essa porta é aberta no momento do Satori, o discípulo não entra em transe, mas passa a ter uma nova atitude de vida que reflete uma notável beleza. Esses críticos ocidentais, mal-informados devem estar confundindo o Zen com um cisma certamente tão antigo como a época de Hui-Neng, o Sexto Patriarca, que dizia existirem discípulos que afirmavam que a única coisa a ser feita era sentar-se imóvel com uma mente perfeitamente vazia; mas em mais de uma ocasião ele enfaticamente afirmou que essas pessoas não eram melhores do que os objetos inanimados de madeira ou de pedra.

Muito longe de ser um exercício de passividade, o Koan envolve a mais tremenda luta mental e espiritual, exigindo o que os mestres chamam de “um grande espírito de busca”. Assim, o mestre Ku-mei Yu escreve: “Uma vez elevado diante da mente, não deixes nunca o Koan escapar; tenta, com toda persistência que possuíres, ver a significação que o Koan te dá e nunca vaciles em tua determinação de ir até o fundo do assunto… Não faças do Koan um quebra-cabeças; não busques o seu significado na literatura que aprendeste; vai firme nele sem qualquer espécie de ajuda intermediária.” Uma vez iniciado o trabalho com o Koan, toda uma massa de idéias surgirá na mente, significados simbólicos, associações, possíveis soluções e toda espécie de pensamentos peregrinos. Eles devem ser firmemente postos de lado e, quanto mais insistentes se tornam, mais intensamente temos de nos concentrar no próprio Koan, lutando para penetrar no dilema que ele representa. De tempos em tempos, o mestre entrevistará o discípulo para verificar como está o seu progresso e, inúmeras vezes, quando o discípulo oferecer como solução um pensamento meramente intelectual e lógico, o mestre o desaprovará dizendo que deverá tentar de novo. Em geral, esse processo continuará por vários anos, até que o discípulo eventualmente alcance um completo impasse; compreende então, que qualquer solução intelectual é fútil; atinge um estado onde o dilema da vida contido no Koan torna-se uma esmagadora realidade e um problema tão urgente a ponto de poder ser comparado a uma bola de ferro presa na nossa garganta. Do ponto de vista filosófico, podemos compreender perfeitamente que o grande problema da vida é arrancar o ganso da garrafa sem feri-lo, passando além da afirmação e da negação, encontrando a libertação das alternativas impossíveis de dominar o mundo tentando possuir tudo ou deixando que sejamos completamente dominados pelas circunstâncias. Mas isso não significa que compreendamos o problema como sendo a mais urgente de todas as necessidades.  A escolha está entre nos afirmarmos contra o mundo, tentando fazer com que todas as coisas se submetam a nós, e por outro lado, entregarmo-nos completamente ao “destino”, negando assim a nossa capacidade pessoal de alcançar qualquer coisa. A maioria de nós evita essa última forma e tenta francamente a primeira, apegando-se rapidamente às posses físicas e mentais na esperança de incorporá-las à sua bagagem. E enquanto essa primeira alternativa possivelmente nunca seja alcançada, pois quanto mais nos agarramos aos objetos do nosso desejo, mais rapidamente eles fugirão, o pensamento da segunda alternativa nos enche de horror diante da morte eterna. Se isso nos ocorre como um problema, isso só acontece de modo remoto e filosófico, parecendo tão distante como o dia do juízo final; e, como há muito tempo entre hoje e esse futuro remoto, podemos esperar por uma possível solução que mude essa situação.

Mas o trabalho com um Koan faz do problema uma realidade imediata e, quando o impasse é alcançado, o discípulo se assemelha a um rato que é perseguido num túnel sem saída, ou a um homem que subiu até o topo de um poste ou chegou à beira de um precipício tentando escapar de um incêndio. Somente quando esse estágio sem esperança é alcançado é que os mestres estimulam os discípulos a redobrarem seus esforços. Um caminho tem de ser encontrado no topo de um poste, e um rato tem de reunir todas suas forças para romper as paredes do túnel. Num trabalho The mirror for Zen Students (O espelho para estudantes do Zen), compilado pelo mestre T’ui-yin, está escrito: “Quando a investigação continua firme e sem interrupções, verás que não existe nenhuma pista intelectual no Koan, pois ele é completamente desprovido de significado, no sentido normal dessa palavra, é inteiramente plano, desprovido de gosto, não tem nada de apetitoso, e que estás começando a te sentir impaciente e pouco a vontade.” Depois de certo tempo, esse sentimento se intensifica, e o Koan parece ser algo opressivo e impenetrável, a ponto de o discípulo comparar-se a um mosquito que tenta picar um pedaço de ferro; mas, “no mesmo momento em que o ferro rejeita definitivamente o seu fraco ferrão, de imediato e de uma vez por todas ele se esquece de si mesmo, consegue penetrar, e o trabalho é feito”. Não há como explicar esse momento, a não ser dizendo que é o momento em que o s grilhões da ilusão se rompem sob a intensa pressão da vontade do discípulo. O exercício do Koan visa concentrar a mente e estimular a vontade no mais elevado grau; nesses últimos estágios o esforço será provocado simplesmente pelo aumento da dificuldade da tarefa. Assim, quando o dilema final está diante discípulo, ele o vencerá com uma tremenda força de vontade e, quando essa tremenda força de vontade faz frente à teimosa resistência do Koan, algo acontece; e, assim como no momento do “impacto”, quando o mosquito pousa no pedaço de ferro, vem um relâmpago de Satori, e o discípulo compreende que não existe problema algum! “Nada lhe resta fazer nesse momento”, escreve um mestre, “a não ser explodir numa gargalhada”.

* Trecho de “O Espírito Zen”. Tradução de Murillo  Nunes de Azevedo.

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